História do Campus Guarapari
1º aniversário Faculdades Doctum Guarapari
18 de março de 2005
Estamos hoje, aqui reunidos, para a aula magna comemorativa do primeiro aniversário das Faculdades Doctum de Guarapari, que hoje mantém os cursos de Direito, Enfermagem, Normal Superior e Sistemas de Informação.
Nenhum começo é fácil. Certamente, temos enfrentado dificuldades. Mas, é grande a nossa determinação e firme a convicção de que construiremos um centro de excelência universitária em Guarapari.
Sabemos que o nosso trabalho já vem sendo reconhecido pela comunidade. Uma prova disso foi o momento de profunda alegria que vivi em setembro de 2004, ao ser agraciado com o título de cidadão honorário que me foi conferido pela Câmara Municipal de Guarapari. Naquele momento, não pude manifestar a minha gratidão e reconhecimento.
De qualquer forma, não poderia agradecer de forma individual, porque a minha relação com Guarapari sempre foi coletiva. A princípio por meio de nossas férias familiares e, hoje, através da decisão, minha e de outros membros da família, de implantarmos uma unidade Doctum em Guarapari.
Por isso, me sinto hoje o representante de uma família que há 50 anos relaciona-se com Guarapari e de um Instituto Educacional que aqui implantará um Centro Universitário.
Este talvez seja o nosso momento mais significativo, quando reunimos a Diretoria, os professores, alunos e funcionários Doctum a fim de comemorar e, sobretudo, registrar os nosso propósitos de trabalhar pelo desenvolvimento econômico e social da Cidade.
Para dimensionar a força de nosso vínculo com Guarapari, reescrevi, a quatro mãos com minha irmã Míriam, uma história que quero contar a vocês:
O dinheiro era curto e muitos eram os filhos na casa dos meus pais. A praia de Guarapari só podia ser visitada uma vez a cada dois anos. Mas exigia uma dose de sacrifícios.
Guarapari era um prazer conquistado com espera e renúncia. No ano de ir à praia, não tínhamos natal. Que presente maior queríamos, se não aquele único pelo qual contávamos os dias?
A contagem começava cedo, quando faltavam ainda trezentos dias. Logo depois vinham os 299 dias, o que era bem mais perto que os 300. E íamos assim, gritando um para o outro, as tantas crianças daquela família populosa e sempre em crescimento.
No meio do descanso do Domingo, no meio do almoço de família, alguém gritava:
- Faltam 99 dias para Guarapari.
E os outros davam vivas, faziam algazarra, a alegria estava chegando, e no dia seguinte faltariam apenas 98 dias. Melhor seria no outro dia, depois do seguinte, porque aí faltariam apenas 97 dias.
Era assim no tempo da espera.
Às vezes acontecia um retrocesso súbito. Nossos pais passavam a falar baixo, mostrar um ar de preocupação e tristeza, falar por sinais entre eles. Adivinhávamos: um retrocesso financeiro nos tirara o paraíso esperado. Guardávamos a contagem regressiva, a espera e os sonhos. Arquivávamos a ansiedade porque o prazer do sol, do mar, da areia estavam postergados. Ficaríamos um ano a mais, a sonhar com o mar, e a ver as montanhas de Minas.
Quando tudo dava certo, quando o esforço de poupança era suficiente, quando a renúncia a pequenos gastos e prazeres rendiam o suficiente, começávamos tudo de novo: a saga de pai, mãe e os muitos filhos no caminho do mar.
O pai alugava um carro e levava colchões, roupas de cama, travesseiros, panelas.
A mãe organizava as malas, os filhos, os lanches do caminho.
No começo, quando o dinheiro era ainda menor, íamos de ônibus até Governador Valadares, de lá de trem até Vitória. O pai nos esperava com uma caminhonete alugada do Dino, que nos levaria até Guarapari.
Na longa caminhada havia vários prazeres: o trem cortando as terras de Minas Gerais, com sua cadência e ritmo. A misteriosa travessia do túnel de Vitória era a quase chegada. Mas o melhor momento era adivinhar a proximidade de Guarapari. O primeiro sentido a avisar era o olfato. Havia uma curva, bem perto do mar, onde podíamos sentir o cheiro da maresia. Era a chegada na praia conquistada.
Os próximos trinta dias seriam de absoluta farra, alegria, descoberta, aventuras.
Num dos anos, o quintal da casa dava para a longa, bela e selvagem Praia do Morro. Tão absolutamente nossa que tantas vezes, havia apenas a nossa barraca nos seis quilômetros de beleza e prazer. Olhávamos para um lado e outro, sentindo que éramos donos de tudo. De tarde, um pulinho na prainha: andar pelas pedras, ver a chegada dos pescadores, comprar o peixe fresco e dar um mergulho e nadar na tarde até a pequena ilha, conquistada apenas pelos mais ágeis na natação.
Havia sempre, cada ano, os momentos da caminhada até o fim da Praia do Morro, depois nos aventurávamos pela pedras, superadas pelos mais determinados, até o outro lado da Praia da Cerca.
Aqui conhecemos uma família que era uma espécie de espelho invertido da nossa: a do pescador Seu Oséias. Ele também tinha tantas crianças que, a cada filho da nossa, havia um do outro lado para ser amigo. Seu Oséias levava o nosso pai, pastor e professor, para desafios físicos: navegação, pescarias.
Havia dias de a criançada andar no mato que cercava a praia. Um dia, vi vindo lá de longe três homens, carregando alguma coisa num varapaus. Vi cada passo deles até o ponto em que reconheci Seu Brandolini. Mais perto, vi que os dois outros carregavam uma corça caçada nas matas da região.
Em Guarapari tínhamos mais tempo com nossa mãe. Normalmente, ela trabalhava tanto que estava sempre ocupada dos afazeres domésticos. Em Guarapari, ela se deixava descansar. Os poucos descansos da nossa mãe, foi aqui que ela os viveu. Sentava na praia vendo a filharada com um raro olhar de descanso, depois pulava na água e, no meio das nossas gargalhadas, saía com seu nado característico: o nado cachorrinho.
O pai largava os livros e o estudo constante para brincar um pouco, ir comprar peixe fresco e exibi-lo como troféu.
O tempo passou e o nosso lazer era sempre aqui em Guarapari. Quando vieram os casamentos, os filhos, a natural diáspora da imensa família, era em Guarapari que nos reuníamos a cada ano, na casa, afinal, construída.
Lá, a segunda geração, a dos filhos dos filhos, viveu a infância, os momentos da alegria do encontro a cada natal.
Após a morte da mamãe, o pai veio para cá viver a aposentadoria. Inquieto, não quis ficar parado: reunia alguns crentes de Muquiçaba lá em casa. O grupo foi crescendo, foi sendo feito uma vaquinha, fomos ajudando com doações e aos poucos foi sendo erguida a Igreja Presbiteriana da Praia do Morro.
Nossa vida familiar foi sempre vivida em torno da educação. O pai sonhou na adolescência com a criação de um colégio, imaginava que lá conseguiria - como conseguiu - distribuir bolsas a alunos carentes como ele próprio recebera lá em Garanhuns. Fundou assim o Ginásio Caratinga, o primeiro no Vale do Rio Doce, em 1936.
Esta é a origem da instituição educacional da qual se origina a Doctum.
A paixão pela educação foi formada em nós pelas conversas diárias e domésticas entre o pai e mãe sempre dedicados à causa educacional. A mãe retomou os estudos, enquanto tinha os 12 filhos que teve e fez carreira como professora da rede estadual de ensino.
Os livros, o debate sobre leis de diretrizes e bases da educação eram parte da conversa na mesa, nos fins de semana, nas reuniões familiares.
Nesse ambiente crescemos. Vendo os pais entregues à causa da educação e esperando as férias no mar de Guarapari.
Juntar as duas paixões: Guarapari e educação tem para nós um sabor especial.
Estar aqui, trabalhar e receber o título de cidadão é uma honraria inesperada que nos deixa a todos com uma sensação de orgulho, satisfação e agradecimento ao povo dessa Cidade que sempre nos acolheu e nos alegrou a vida.
Obrigado por tudo.
Prof. Cláudio Leitão
Last modified 10/03/2006 10:59:AM


